A hora de parar

“Sábio é saber a hora de parar ou até mesmo silenciar” – Júlio Aukay
Parafraseando o famoso jogador William Tilden “Eu queria ter um dólar por cada noite que fui para casa dizendo vou parar de jogar tênis”.  Nesse caso geralmente é a frustação do jogo perdido.  Mas, você acorda no dia seguinte e vai treinar e jogar.  Essa é a atitude de um jogador.   Mas se a razão física pesa mais?
Dezembro de 2014, acabou a temporada do circuito sênior, venci o Master e terminei o ano de número 1 do Brasil. Não aguentava de dor no quadril. Fui ao médico e ele falou, siga jogando e, em breve, terei que por uma prótese no seu quadril.  Talvez a decisão mais difícil da minha vida foi ter decidido parar de jogar tênis. Confesso que até hoje fico chateado quando penso que não vou mais poder competir.  Meu sonho era ser número 1 do mundo aos 80 anos, hoje esse sonho mudou: quero estar bem de saúde e talvez sendo um pouco exagerado “quero poder andar bem até os 90 anos”.  Mas a história começa muito antes, na época que era profissional, em 1983 estava no meu melhor ano, depois de passar um ano ralando na Europa e quase passando necessidade.  A vida ficou tão dura e tão sofrida no circuito profissional que resolvi parar de jogar no auge da minha carreira,  na posição 655 de simples e 520 duplas para aceitar um mestrado de Administração Internacional.  Em 1985 voltei a jogar.  Sentia muita falta do tênis, mas nunca conseguir recuperar a forma de 1983 e não consegui pontuar na ATP outra vez.
Mas não precisamos ser tão drásticos assim.  Você pode parar momentaneamente para curar uma lesão. Tenho um aluno que treina comigo e está com o cotovelo de golfista e toma anti-inflamatório e se recusa a parar de jogar. Ele consegue jogar, mas seu saque não evolui. Ele adora jogar, está melhorando seu jogo, mas só agora, um ano depois, resolveu tomar providências para curar seu cotovelo.
Está certo isso?  Quem somos nós para julgar quem procura esquecer as dores e seguir jogando?  Eu já fiz isso várias vezes também e às vezes penso “se cada dia que tiver uma dorzinha não for treinar, nunca mais vou jogar”.
Outras vezes o jogador necessita fazer uma operação, e o jogador não quer parar de jogar para não perder tempo e o esforço necessário para recuperação. Acompanhei um amigo que operou o quadril.  Vi o sofrimento e dedicação que ele teve para se recuperar.  Confesso que não sei se tenho essa coragem e por isso até agora não parei para operar o meu quadril.
Estou perdendo a mobilidade mas consigo jogar Beach Tennis e depois de operar, poderia jogar e dar um peixinho na areia? Provavelmente não, mas meu amigo já está batendo seu tênis que ele ama e está me animando a operar.  O médico do CETE da escola Paulista de Medicina, diz não vou te operar até você realmente precisar e sigo o conselho dele.
Vamos combinar, o esporte é um vício bom!  Quantas vezes você vê o atleta parar de jogar e voltar. A adrenalina de bater uma bola boa, da competição, os aplausos é tudo muito gostoso e a gente não quer parar.  Vejam a história da recuperação do tenista argentino Juan Martin Del Potro e a cirurgia no pulso e diversas lesões que ele teve e ainda tem.  Mas até quando é saudável fazer isso?  Talvez a história mais impressionante foi a do Guga.  No livro dele ele conta que se tivesse esperado 6 meses depois da conversa com o sueco Magnus Norman que recomendou ele a fazer a cirurgia, talvez não tivesse operado a primeira vez.   Guga nunca se recuperou e despencou no ranking até parar de jogar. Aquela fração de segundos perdidos e diferença do sucesso para não ganhar mais um jogo.
Continuando no tênis, temos muitos exemplos. Nicolas Almagro e Stan Wawinkra operaram o joelho e o Andy Murray fez uma delicada intervenção  no quadril e ainda tem a expectativa de retornar ao circuito.
No Beach, não conheço tantos exemplos. Sei que o Marcus Vinicius teve um problema no cotovelo que levou um tempo para recuperar,  mas parece que está bem agora e foi convocado para defender o Brasil na Rússia esse ano.  O ex número 1 do mundo Gui Prata também teve lesões e acabou deixando o circuito profissional, mas de vez em quando ainda joga uns torneios profissionais e ainda joga muito Beach Tennis e reforça o ditado popular que diz “ O Beach Tennis é uma cachaça. ”  Diogo Carneiro, jovem talentoso, que já chegou a ser número 1 do Brasil, operou o joelho, mas já está de volta ao Beach Tennis.
Mudando de esporte, no futebol tem a história do Sr. Pedro Ribeiro de Lima que aos 69 anos se aposentou o ano passado do time de segunda Divisão do Perilima, time da Paraíba.  Ele diz que futebol para ele não pode morrer pois é aliado a sua existência.  Eu  assinaria um  contrato para ser o próximo Sr Pedro e você?
Do outro lado, temos o palestrante e psiquiatra Roberto Shinyashiki  que fala em seu vídeo de foco:  “parar aquilo que não te traz resultado, não te faz bem é importante para você focar em algo que  melhor.”  Ou seja, sair arrebentado da quadra todos os dias, não vale a pena.
A lição que fica é que devemos respeitar nossos limites e saber a hora de parar. Às vezes abdicar de uma atividades que nos faz bem pode ser muito difícil, mas sempre há formas de substituir em prol de uma saúde longeva.
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